28 de Outubro de 1856. A data está marcada na História por ter sido neste dia que se realizou a primeira viagem de comboio em Portugal. Foi há 150 anos que a primeira composição realizou o percurso entre Lisboa e o Carregado.
Nessa altura não havia estradas, nem sequer bons caminhos. Uma viagem de liteira, entre Lisboa e o Porto, demorava pelo menos cinco dias. Na mala-posta seriam, no mínimo, trinta e quatro horas. Um tempo recorde para a época!
Desde então, a evolução do caminho-de-ferro em Portugal (e em todo o mundo), registada na História como uma grande aventura humana, mudou e assinalou o desenvolvimento do País. O caminho-de-ferro foi, aliás, um dos principais motores do desenvolvimento da humanidade.
E tudo isto começou com pequenas locomotivas movidas a vapor. Actualmente, a CP continua a manter em funcionamento, durante alguns meses por ano, um exemplar destas locomotivas que transportaram milhares de pessoas ao longo do país. A viagem, realizada entre a estação da Régua e Tua, percorre as margens do Douro e transporta os passageiros numa verdadeira viagem no tempo.
Hoje em dia há já várias formas de chegar até à Régua mas, para quem procura a emoção e conforto das viagens de comboio, a melhor opção é viajar do Porto até à Régua numa das composições que realiza este percurso e, aí, fazer o transbordo para a locomotiva a vapor.
A paisagem ao longo desta linha, inaugurada em 2 de Dezembro de 1887, já pelas mãos da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses, varia entre o verde constante e as casas e quintas das gentes que vivem ao longo do percurso atravessado pelo caminho-de-ferro.
Logo depois da estação de Caíde, o comboio entra num túnel rompendo as entranhas da terra deixando os passageiros nas trevas por mais de 40 segundos. Tempo mais do que suficiente para dar o devido valor à luz que surge logo de seguida.
A vida e as hortas das pessoas estendem-se até à linha aproveitando ao máximo todos os pedaços de terra fértil. O desejo pelo desenvolvimento das cidades começa a confundir-se com a nostalgia da vida trabalhosa mas relaxante do campo.
Ao fim de uma hora de viagem, ainda falta outro tanto até à Régua, a paisagem vai ficando mais verde. Há cada vez menos casas e começa a adivinhar-se o Douro e as suas encostas repletas de vinhas.
Quando finalmente a linha encontra o Douro, a paisagem sofre nova mutação. As encostas, que se elevam nas duas margens, formam desenhos hipnóticos que dão a ilusão de ter sido traçados a régua e esquadro numa folha de papel.
Em verdadeiras cenas para “turista” avistam-se ao longe, na outra margem, as marcas que dão nome ao afamado vinho do Porto.
As máquinas fotográficas e câmaras de vídeo ficam sem descanso nas mãos de quem quer gravar para o futuro um momento tirado de um passado longínquo. Mas é ao chegar à Régua que a emoção cresce.
Vapor nas margens do Douro
Na gare da estação da Régua já aguarda, com toda a imponência, a locomotiva a vapor conhecida como “Comboio Histórico”. A nauguração do primeiro troço da Linha do Tua (que ligava Tua a Bragança) realizou-se a29 de Setembro de 1887 e contou com a presença de El-Rei Dom Luís, da rainha D. Maria Pia, de vários ministros e convidados, salientando-se o artista Rafael Bordalo Pinheiro.
Foi um acontecimento histórico na época e ainda hoje o exemplar destas locomotivas continua a fazer as delícia de miúdos e graúdos que se atropelam junto à composição para ver os maquinistas a preparar a “máquina” para a viagem.
Carvão na fornalha, água na caldeira e o vapor começa a sair da chaminé. Controlada a pressão “se houver um violino até voa”, garante o maquinista em tom de brincadeira quando lhe perguntam se o comboio anda depressa. Mas seria preciso uma verdadeira orquestra para a locomotiva ganhar asas. Os 30 km do percurso entre a Régua e Tua demoram cerca de 2h30 a percorrer. A viagem é feita para apreciar a vista única do Douro e, além disso, tal como noutros tempos, é preciso parar pelo caminho para abastecer de água e lubrificar os mecanismos. A máquina queima cerca de 2500 quilos de carvão e três mil litros de água no percurso da Régua ao Tua e volta.
Cada paragem é motivo para mais uma reunião dos passageiros em torno da máquina. A caldeira ferve, os flashs não param. Mesmo ao longo de todo o percurso, as pessoas juntam-se às dezenas nas estações e apeadeiros para, literalmente, ver passar o comboio.
Mais do que palavras que a descrevam, esta é uma viagem que fica na memória de todos os que a fazem. Fica um conselho. Tal como antigamente, o vapor da máquina acaba por libertar partículas de carvão que deixam os passageiros pintalgados de negro. Nos tempos idos, quando não havia alternativa, os passageiros viajavam com uma muda de roupa para trocar na chegada ao destino. Não será má ideia seguir o exemplo.